19 dezembro 2014

A valorização do artesanato no Brasil


Em setembro deste ano, numa visita à cidade de Motevidéu, no Uruguai, fiquei impressionada com a criatividade e valorização dos artesãos. A foto acima foi tirada no Mercado de los Artesanos, um espaço fechado no centro da cidade dedicado à expositores que funciona nas sextas e sábados, durante o dia todo.

Enquanto isso, no Brasil, já senti na pele o preconceito que a palavra "artesanato" carrega. Certa vez, ao mencionar à uma senhora que eu fazia crochê, ela me respondeu "mas você não trabalha?". Ou seja, artesanato aqui ainda se resume à coisa de hippie (não desmerecendo o movimento), passatempo de senhorinhas desocupadas ou apenas lembrancinhas que as pessoas compram em algum lugar do país onde vão "turistar"... quem sai do Sul pro Nordeste compra lá, quem sai de lá e vem pro Sul compra aqui, ou seja, dificilmente se valoriza o artesanato local! 

O artigo a seguir, escrito por Luna Luca e publicada no Blog do Movimento Compro de Quem Faz, ilustra bem as mazelas de quem trabalha com artesanato, ao não ver seu trabalho valorizado pela sociedade onde vive.


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Como a sociedade contemporânea
enxerga a arte e o artesanato

Quando você trabalha com ou faz arte/artesanato, as pessoas costumam não entender a finalidade daquilo. Elas franzem a testa e ficam questionando “pra quê” ou “porquê” você perde tempo fazendo aquela atividade e, no fim das contas, elas só conseguem concluir que “é para passar o tempo”, “ficar menos entediada” ou “por terapia”. Acredito que esse comportamento seja um dos fatores mais desanimadores para um criativo, porque só ele sabe o tamanho da necessidade que tem de criar, inventar e inovar todos os dias. Talvez por isso mesmo que, muitas vezes, só ele e outros criativos consigam enxergar algum valor nessa forma de expressão, que vai muito além de uma simples costurinha, um simples desenho, um simples bordado. O artesanato e qualquer outra forma de arte passam a ser a essência do seu criador em cada peça feita com amor, carinho e dedicação.

EXPOSIÇÃO DE ARTESANATO EM FOZ DO IGUAÇU (PR)                                                                                                           


Mas a grande questão é que vivemos numa sociedade industrializada e que não está acostumada com a arte ou com o artesanato como uma forma de valor natural e constante, mas sim como algo que só se vê e se valoriza de vez em quando, em alguns momentos específicos. Infelizmente, essa atitude não faz parte do nosso cotidiano. Temos que concordar que o mundo está mudando e as pessoas estão mais abertas a novidades, mas o preconceito com a palavra artesanato ainda existe. Por isso é difícil para muitos enxergarem e aceitarem que na verdade você trabalha com produção manual porque acredita no seu potencial e quer dividir um pouco do seu conhecimento, da sua história e da sua cultura com outras pessoas. Quer agregar na vida de alguém e mostrar que criatividade é tudo, e que todos podem, e que esse tipo de pensamento gera inclusão, sentimento de comunidade e igualdade.

Isso não quer dizer que a sociedade seja ruim e desprendida de suas raízes, ou que todas as pessoas sejam assim. Eu entendo que a valorização desse tipo de trabalho seja uma questão cultural, de valores e convivência, que acabam agregando na sua maneira de ser e enxergar o mundo. Entretanto, penso também que talvez seja muito mais fácil viver o comum e o cômodo, já que estamos fadados a ficar em um sistema que nos prega a rotina, o habitual, o burocrático, e não se encaixar nesses padrões impostos por ele acaba soando de uma forma negativa no geral.

EXPOSIÇÃO DE ARTESANATO EM BLUMENAU (SC)                                                                                                           


Dessa maneira e com essa reflexão é que termino esse post dizendo que, na minha maneira de ver, o Compro de Quem Faz se torna um passo mais do que importante para a nossa sociedade, ele se torna uma ferramenta essencial na reeducação e no auxílio destas pessoas que se sentem de mãos atadas. É por meio deste movimento que temos o poder de expor para o mundo que todos podem ser criativos, exploradores, grandes artistas, que podem trabalhar com algo que amam e produzir com qualidade e exclusividade. Se conseguirmos enxergar o poder que temos nas mãos ao passar pra frente um ideal, algo em que acreditamos e pelo que lutamos, então também teremos o poder de afetar de forma positiva a maneira como alguém enxerga o mundo, expandir horizontes e destruir barreiras criadas por anos de sistema em nossa sociedade.

Quem é criativo sabe que o resultado de uma peça final é a soma de horas - ás vezes até dias ou meses - trabalhando, de ideias pipocando na cabeça, de tentativa e erro, tentativa e acerto, mãos corajosas e um coração cheio de amor. Fazer arte e propagar ela não é nada mais, nada menos, do que passar pra frente quem você é.

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